O AMOR VERDADEIRO JAMAIS MORRE!

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O coração de uma mulher é um oceano de segredos

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Menino da Mala - Lene Kaaberbol e Agnete Friis

(Título Original: Drengen I Kufferten
Tradutor: Marcelo Mendes
Editora: Arqueiro
Edição de: 2013)


“Você adora salvar as pessoas, não é? Bem, aqui está a sua chance.” 

Mesmo sem entender o que sua amiga Karin quer dizer com isso, Nina atende seu pedido e vai até a estação ferroviária de Copenhague buscar uma mala no guarda-volumes. Dentro, encontra um menino de 3 anos nu e dopado, mas vivo. 

Chocada, Nina mal tem tempo de pensar no que fazer, pois um brutamontes furioso aparece atrás do garoto. Será que ela está diante de um caso de tráfico de crianças? Sem saber se deve confiar na polícia, ela foge com o menino e vai à procura de Karin, a única que pode esclarecer aquele absurdo.

Quando descobre que a amiga foi brutalmente assassinada, Nina se dá conta de que sua vida está ameaçada e que o garoto também precisa ser salvo. Mas, para isso, é necessário descobrir quem ele é, de onde veio e por que está sendo caçado.

Neste primeiro livro da série da enfermeira Nina Borg, vendido para 27 países, as autoras Lene Kaaberbøl e Agnete Friis apresentam uma heroína que luta contra seus demônios e busca fazer justiça em meio à crueldade e à indiferença do mundo.




Palavras de uma leitora...



"Do lado de fora, tudo continuava como antes. Do lado de dentro, o mundo havia se acabado."


Ainda que tivesse fugido, ela sentia que seu passado um dia bateria à porta, cobrando uma dívida que ela sabia que jamais conseguiria pagar... 

Construíra um mundo ao redor do seu pequeno Mikas,o filho de três anos que lhe dava motivos para levantar todos os dias e procurar ser tudo aquilo que ele necessitava, mas aquele vazio amargo não a abandonou e nem o passar dos anos puderam tornar a dor mais suportável. Agora, vivendo o pior pesadelo de sua vida, ela não podia deixar de se perguntar se finalmente não estava pagando por seu pecado. Um preço alto demais

"Sentia-se à beira de um abismo, mas não esperava de modo algum que Deus viesse em seu socorro. Pelo contrário. Não acreditava mais em nada daquilo."

Tudo o que ela lembrava era que estava no parquinho com o filho quando uma moça se aproximou e lhe entregou um chocolate. Sabia que havia se levantado e ido para perto de seu bebê, pedindo à mulher que não voltasse a dar doces a ele e então voltara para o mesmo lugar em que estava, com o filho a poucos metros brincando, enquanto ela bebia seu café. E então... a escuridão. 

Quando acordou, estava num hospital, confusa e ferida, com enfermeiras hostis lhe dando ordens e lançando olhares de desprezo, como se ela tivesse cometido algum crime. Só tempos depois lhe contaram que ela tinha sofrido uma queda provocada pelo grande teor de álcool em sua corrente sanguínea. Chocada com o que ouvia, Sigita tentou se defender, mas tudo foi ofuscado pelo pavor que a sufocou ao perceber que Mikas não estava ao seu lado. Que ninguém sabia onde ele estava. 

"Meu coração não está pesado, pensou Sigita. Está no fundo do mar, perdido na escuridão."

- Com a polícia duvidando dela, o marido em outro país agindo como se tudo fosse mais importante que seu filho e a sensação de culpa que insistia em invadir seu coração, ela sabia que estava por conta própria e que precisaria correr contra o tempo e o que quer que fosse para trazer seu filho de volta. Com vida. Seu pecado poderia ser grande, mas não permitiria que seu filho pagasse o preço por ele. Quem quer que tivesse levado seu bebê, teria que devolvê-lo. Não poderia imaginar outra possibilidade. Não poderia viver se não conseguisse recuperar seu filho. 

Com seu mundo indo abaixo e várias perguntas sem respostas, ela ainda está longe de saber tudo o que se esconde por trás do sequestro do filho...


"Como era possível que eles tivessem chegado àquele ponto?"


Tudo que ele mais desejava era dar um lar seguro e feliz à sua esposa...

Fazia mais de dez anos que estavam juntos. Ainda era capaz de lembrar com clareza o dia em que a conheceu e como ela se tornou todo o seu mundo, a realização de um sonho. Faria qualquer coisa para que ela não conhecesse a dor ou a tristeza, para protegê-la de tudo de ruim que existisse fora das paredes da linda casa que partilhavam. Porque quando se ama... qualquer princípio perde importância. E só queremos cuidar de quem amamos... acima de tudo.

Fez a ligação necessária. E pegou o passaporte que o levaria ao seu destino. Naquele momento... não poderia imaginar que algo poderia dar errado. E ameaçar o mundo de conto de fadas que construíra. Não só ameaçar... como destruir por completo. 

Só muito depois perceberia quão frágil sempre foi sua felicidade e como certas escolhas podem afetar diversas vidas. Seria capaz de consertar o estrago? Ou... seria tarde demais?


"Foi preciso que o menino entreabrisse os lábios para que ela se desse conta de que ele ainda estava vivo."

- Ela havia chegado à conclusão que nada mais seria capaz de surpreendê-la. Eram anos de experiência, lidando com refugiados e outras vítimas da violência espalhada pelo mundo. Antes mesmo de se tornar enfermeira, já não possuía nenhuma ilusão em relação às pessoas. Sabia do que o ser humano era capaz. Como vidas podiam ser brutalmente destruídas pela maldade de alguém. E, enquanto muitos preferiam viver a própria vida e ignorar todo o terror que tantas e tantas vítimas viviam diariamente, Nina sabia que jamais encontraria a paz se simplesmente virasse as costas. Não conseguia. A indiferença não fazia parte do seu sangue. 

Ela tinha uma família. Dois filhos que amava mais que tudo na vida, um marido carinhoso que estava sempre ali quando ela mais precisava e um trabalho estável e que, embora não pudesse torná-la rica, permitia que tivessem uma vida confortável e agradável. Mas aquilo nunca lhe bastou. Por isso, agora seu casamento estava em crise e seus filhos mal a viam em casa. Porque ela não podia ser feliz sabendo que do lado de fora existiam pessoas suplicando por ajuda. Uma ajuda que muitas vezes não chegava...

"Então se deu conta de que naquele momento só havia uma coisa a fazer: tirar aquele garoto dali o quanto antes."

Porém, toda a crueldade que ela já presenciara não foi suficiente para prepará-la para aquilo... Quando Karin, a amiga com a qual não tinha nenhum contato há um longo tempo, ligou desesperada, pedindo para que ela buscasse algo no guarda-volume de uma estação ferroviária, Nina soube que ela só podia estar metida em alguma encrenca. Ainda assim, guiada por aquela necessidade de socorrer as pessoas, fizera o que a amiga pediu, encontrando dentro de uma mala comum o corpo desnudo de um bebezinho de aparentemente três ou quatro anos. No início, ele parecia não respirar, mas logo ela percebeu que ele estava vivo, embora inconsciente por causa dos efeitos de alguma droga que utilizaram nele. Chocada e furiosa, sua primeira reação foi chamar a polícia. Mas um instinto mais forte lhe disse que não poderia confiar em ninguém... não enquanto não soubesse o que estava acontecendo. 

E então... um homem cruza seu caminho, não deixando dúvidas de que mataria para ter de volta o que era seu...

Quem seria aquela criança? Possuiria uma família em algum lugar? Seria vítima de tráfico de crianças? Mesmo enquanto formulava todas aquelas perguntas, Nina já sabia que algo bem mais profundo se escondia por trás daquele menino na mala e o desaparecimento e posterior assassinato de sua amiga. Sabia também que sua própria vida estava em perigo. Mas nada no mundo a faria abandonar aquele bebê. No momento, ela era tudo o que ele tinha de seguro...


"Mas a gente não vê muitos finais felizes por aí, né?, perguntava seu lado cético. As coisas raramente terminam do jeito que queremos."


- Fazia mais de dois anos que este livro estava na estante, aguardando eu criar coragem para lê-lo.rs Ele foi presente de aniversário que ganhei da minha tia, que sabe bem como amo ler e sou atraída pelos livros de suspense. Fiquei muito feliz ao tê-lo em minhas mãos e a sinopse me deixou desesperada para lê-lo. Só que o medo foi tão intenso quanto o desejo de lê-lo.kkkkkk... Eu sabia que não era uma história fácil. Ainda mais envolvendo crianças. E não me sentia preparada para encarar um livro assim. Só que na quarta-feira... simplesmente peguei o livro, dizendo para mim mesma que estava na hora de parar de fugir. E quando li as primeiras páginas... o mundo, por várias horas, se resumiu às páginas desta história, ao mundo criado por estas autoras. 

- Já li tantos livros nesta vida... Muitos romances apaixonantes e inesquecíveis, mas também encontrei no meu caminho histórias brutais, amargas e que arrancaram muitas partes do meu coração. Que deixaram uma sensação de impotência e me arremessaram à vida real, me provocando angústias, lágrimas e uma vontade de gritar e derrubar coisas. Identidade Roubada, No Escuro, Restos Humanos, Se Houver Amanhã, Não Conte à Ninguém e tantas outras histórias que não pintam um mundo colorido... que simplesmente mostram a vida real como ela é, que nos fazem encarar coisas que não queremos ver. Quantas vezes já fingimos não ver... não escutar? Quantas vezes olhamos para o outro lado, desejando apenas viver nossa própria vida e ignorar o que quer de ruim que se esconda por trás de uma porta trancada ou num olhar suplicando por socorro. Somos humanos. Falhamos. Mas ao ver uma notícia cruel na televisão e perceber que existiam pessoas que poderiam ter evitado aquela tragédia e simplesmente viraram para o outro lado e fingiram não ver, não deixo de me perguntar se essas pessoas pelo menos se colocaram no lugar dessas vítimas as quais não socorreram. Se por um momento se colocaram na pele delas, imaginando o que era estar sofrendo enquanto esperavam, ansiavam por uma ajuda que alguém poderia dar e preferiu não fazê-lo. 

- Eram coisas que passavam pela cabeça de Nina. Que a impediam de viver uma vida normal. Não conseguia não se envolver. Enquanto o mundo virava as costas, ela se importava e as pessoas não eram capazes de entender isso. Nem seu marido e muito menos seus filhos, que sentiam a ausência da mãe e nunca sabiam quanto tempo ela passaria fora, socorrendo vítimas de estupro, agressão, bombas ou qualquer outro inferno. Naquele momento, ela fazia parte de um grupo que prestava auxílio aos imigrantes ilegais, que se encontravam num estado de extrema vulnerabilidade, fugindo de uma vida terrível e caindo num país que nem sempre era um refúgio. Mas aquela pequena criança não era um desses casos. Ela não fazia nenhuma ideia de que caso seria... Mesmo assim, ela não o largou onde o achou ou o entregou a alguma autoridade quando todos os seus instintos lhe gritavam para não largar o menino. Cada momento envolvida na história daquela criança destruía mais seu casamento, aumentava a distância entre ela e os próprios filhos, ameaçava sua carreira, liberdade e até mesmo sua própria vida. Mas abandoná-lo estava totalmente fora de questão. Como não admirar alguém assim? Como não amar esta protagonista? :)

- Nina é exatamente o tipo de pessoa que faz tanta falta neste mundo. Alguém com uma força e coragem impressionantes, com qualidades e defeitos como qualquer ser humano, mas que tem consciência dos vários tipos de crueldades presentes no mundo e que tenta fazer sua parte. Ela se envolve de corpo e alma naquilo que acredita, mesmo que isso dificulte tanto sua própria vida e seu relacionamento com a família. E como qualquer outra pessoa, ela também possui seus próprios fantasmas. 

- Este é um livro que mexe com a gente. O suspense nos faz virar cada página temendo o que ainda vai vir e as histórias dos personagens nos fazem refletir e nos questionar sobre o que faríamos se estivéssemos no lugar deles. Eu senti verdadeiro ódio por alguns, compaixão e carinho por outros e uma dolorosa sensação de pena por aqueles outros que tiveram suas vidas destruídas por escolhas equivocadas não só deles, mas também de pessoas que provocaram uma reação em cadeia, derrubando não só a elas mesmas, mas levando com elas aqueles que nada tinham a ver com suas vidas. 

- A história não é imprevisível. Na verdade, antes mesmo da metade conseguimos ter uma grande ideia do que motivou o desaparecimento de um menino, o surgimento de uma criança numa mala numa determinada estação ferroviária, a morte da amiga da Nina e o fato de um assassino frio estar atrás dela e da criança. É fácil juntar as peças e montar o quebra-cabeça. Mas isso não prejudica em nada a leitura. Pelo contrário, quando percebemos o que está se passando, o choque nos faz duvidar daquela explicação ao mesmo tempo que levanta perguntas que poderiam ter diversas respostas diferentes e nenhuma delas seria justa. Mas desde quando a vida é justa, não é?

- Como fã de Lei e Ordem - Unidade de Vítimas Especiais, eu já vi diversas realidades diferentes. A série já está em sua 18ª temporada e eu já vi todos os episódios de todas as temporadas anteriores e estou acompanhando a temporada atual. Nada me surpreende. As pessoas são simplesmente capazes de fazer qualquer coisa. Até mesmo a mais aparentemente boa pode cometer um enorme pecado, um crime em nome do ódio... ou do amor. 

"O homem a fitara com um olhar já distante e opaco. Como se alguém tivesse fechado uma cortina sobre as pupilas. Nina conhecia aquele olhar. Claro que conhecia. Enfermeiras viam pessoas morrendo a toda hora.
 Mas ali era diferente."

- Apesar de ser uma história forte, de várias vidas afetadas e conectadas por escolhas e erros... de vidas destruídas pelos mesmos motivos, a história não é tão pesada quanto poderia ser. E isso é um alívio.rs Comparada com Não Conte a Ninguém, Confie em Mim ou A Lista do Nunca, é bem leve.kkkk Mesmo assim nos causa um impacto e tanto, marcando, nos impedindo de esquecê-la. 

- Nem precisei pensar antes de dar 5 estrelas ao livro e passagem direta para os favoritos! No entanto, não me atrevo a recomendá-lo. Histórias assim... prefiro que vocês simplesmente escolham ler. Não é um livro fácil. Não é mesmo. 

- Eu já tenho o 2º livro da série, que contará histórias diferentes das do primeiro livro, mas envolvendo a enfermeira Nina, que é a protagonista da série. Desejo com todo o meu coração que ela tenha conseguido manter seu casamento. Que a família dela aprenda a entendê-la e apoiá-la ao invés de condená-la por simplesmente se importar. 

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