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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Teoria do Medalhão - Machado de Assis (conto)


Contos Escolhidos - 4/30

Machado de Assis é um dos mais renomados contistas da literatura brasileira. Transitando entre os diversos tipos de contos - do tradicional ao moderno -, seus textos são originais e complexos. São contos cheios de acontecimentos intensos - quase sempre envolvidos num clima de tensão -, repletos de personagens polêmicos e ambíguos e de jogos e armadilhas textuais que induzem à dúvida, relativizando a maior parte das ideias e levando o leitor a refletir sobre suas "certezas". 



Palavras de uma leitora...


- Sim. Sigo tendo como companhia, presente na minha bolsa onde quer que eu vá, o livro Contos Escolhidos do meu já querido Machado de Assis. 

Eu já tinha notado antes como são diferentes uns contos dos outros. Falam de assuntos diversos e ainda assim conseguem prender nossa atenção, nos cativar. Porém, confesso que tive problemas com o conto Teoria do Medalhão.rs

A grande diferença dele para os outros é que é todo composto por diálogos. Não há narrativa. Acompanhamos somente uma conversa entre um pai e seu filho. E mesmo assim, o conto me prendeu. O problema é que não estava conseguindo compreendê-lo.kkkkkk

- A linguagem dele é um pouco mais difícil do que a dos outros. Já li textos "difíceis", mas achei esse muito mais. Todavia, essa foi minha primeira impressão, quando o li dias atrás. Mas hoje eu resolvi voltar a lê-lo para só então fazer a resenha. E aí sim o entendi. Pelo menos, acho que sim.kkkkkkk...

"[...] Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum."

- Que pai não deseja isso para o seu filho, não é mesmo? Todos os pais (pelo menos os dignos de serem chamados assim) querem o melhor para seus filhos; que se tornem grandes pessoas, que tenham uma vida agradável, estável, que se realizem pessoal e profissionalmente. E até aí, tudo bem. Eu achei que o conto seguiria esse caminho. Seria uma conversa amigável entre pai e filho, onde o segundo receberia valiosos conselhos para se tornar um grande homem, uma pessoa "de bem". E, de certa forma, essa realmente era a intenção do pai dele.

Eram onze da noite. Janjão e seu pai tinham acabado de se despedir dos convidados para o jantar (é o que entendemos pelo início da conversa). O pai estava muito orgulhoso de seu filho, antes um menino traquinas e agora todo um homem aos seus vinte e um anos. Alguém diplomado com várias possibilidades pela frente. Mas ele percebe possuir a "importantíssima" obrigação de orientar seu garoto para que ele tome o caminho certo. Segundo o que ele (o pai) acredita ser certo, claro. 

E é aí que eu comecei a estranhar as coisas.kkkk... Mesmo na primeira leitura (quando estava tendo dificuldades com o texto), pude notar a ironia presente nas palavras, o que de fato aquele pai queria ensinar ao seu filho. Todo o inverso de um "bom caminho", por assim dizer. Na verdade, ele considerava o filho um imbecil e queria lhe ensinar um ofício de aparências. Uma fachada, sabe. 

" - Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício."

- Que elogio, não é?rs Ele meio que chamou o filho de retardado mental, idiota, algo do gênero. O que tornava Janjão perfeito para o ofício que seu pai queria lhe ensinar: o de Medalhão. O de ser alguém que vive de aparências, dizendo o que os outros querem ouvir, repetindo conhecimentos que não foram adquiridos por ele mesmo, mas sim apenas repetidos mecanicamente. Em resumo, alguém que não pensa, que é pura máscara, artifícios e futilidades. O que nos faz perceber que este conto, estruturado de maneira tão distinta, é uma crítica recheada de ironias. Uma crítica não só à sociedade, mas à política. Eis aí um assunto no qual não irei me aprofundar, obviamente.rs 

"[...] mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade etc, etc."

- Considerando que Machado de Assis era conhecido pela ambiguidade proposital de seus textos e que não sou nenhuma estudiosa do gênero nem nada, a conclusão à qual cheguei pode estar equivocada ou não ser o que a maioria entende. Enfim... Mas achei o texto extremamente inteligente, divertido pela ironia presente em cada trecho, em que cada palavra que saía da boca do pai de Janjão. E enxerguei uma crítica sutil e ao mesmo tempo bastante clara à sociedade que se deixa enganar, que ouve exatamente aquilo que quer e se deixa iludir por tipos como Janjão, dados à falácias, que têm muita lábia. No fim, não fiquei com a sensação de que o pai do "brilhante" indivíduo o via como alguém tão idiota assim. Na verdade, ele via no filho as qualidades necessárias para fazê-lo enganar os verdadeiros imbecis: toda a sociedade. Mas esta é apenas a minha opinião. Acredito que o texto é aberto à interpretações.rs

- Não é meu conto preferido do livro, mas gostei muito. E já estou ansiosa para ler os próximos. :)


Contos anteriores:

Missa do Galo
Conto de Escola
Cantiga de Esponsais

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