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quarta-feira, 7 de junho de 2017

O Espelho - Machado de Assis (conto)


Contos Escolhidos - 5/30

Machado de Assis é um dos mais renomados contistas da literatura brasileira. Transitando entre os diversos tipos de contos - do tradicional ao moderno -, seus textos são originais e complexos. São contos cheios de acontecimentos intensos - quase sempre envolvidos num clima de tensão -, repletos de personagens polêmicos e ambíguos e de jogos e armadilhas textuais que induzem à dúvida, relativizando a maior parte das ideias e levando o leitor a refletir sobre suas "certezas". 



Palavras de uma leitora...


- Já são quase meia-noite. E tenho que acordar às quatro da manhã, pois tenho prova. Mas estou aqui fazendo resenha.kkkkk.. Não sou normal. Tenho certeza disso! 

Graças a Deus, meu computador voltou a funcionar! :D Isso significa que sexta-feira, se tudo der certo, estarei publicando a resenha de O Diário de Anne Frank, uma história que mexeu muito com as minhas emoções e ainda não sei o que irei ler, pois não paro de pensar na Anne, em tudo o que ela viveu, os sonhos, as esperanças... e seu inaceitável fim. Ela não sai da minha cabeça. A ambição, o amor pelo poder e a maldade humana destruíram a vida de uma garota brilhante que tinha muito o que ensinar. Enfim... 

Mas este post é sobre o conto O Espelho, então vamos a ele! :)

- O conto nos traz cinco amigos que reunidos conversavam e debatiam sobre diversas questões, em especial a natureza humana. Na realidade, apenas quatro deles debatiam. O quinto, silencioso, apenas pensava, observando e recusando-se a fazer parte da discussão. Ele detestava discutir, preferindo então manter-se calado. 

Todavia, naquela noite em especial, seus amigos não lhe deixaram em paz e ele aceitou partilhar sua opinião sobre a alma humana, relatando algo que ocorreu com ele, vários anos antes e que foi extremamente significativo. 

"Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro..."

Partindo dessa impactante afirmação, Jacobina começou a contar aos outros o que lhe aconteceu, quando ele tinha então somente vinte e cinco anos... Tal foi a curiosidade dos cavalheiros ali presentes, que ninguém se atrevia a debater, apenas ouviam, fazendo perguntas que o incentivasse a continuar falando... Totalmente absorvidos pela história, esqueceram-se de tudo...

Jacobina era um jovem pobre quando acabou por ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Todos os que o conheciam ficaram muito impressionados e a partir daquele momento mal recordavam seu nome, chamando-o sempre de "alferes", "senhor alferes", fosse com orgulho, admiração, inveja ou respeito. O comportamento das pessoas à sua volta, a maneira como passaram a tratá-lo por conta da nova posição influenciaram muito a forma como o próprio Jacobina passou a ver-se e, ele sequer poderia recordar quando aconteceu, de repente não era mais ele mesmo, um ser humano, mas tão somente um alferes. Os sentimentos humanos,as emoções, tudo foi desaparecendo...

"As dores humanas, as alegrias humanas se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes."

Conforme ele prossegue, dividindo com seus companheiros e também com nós leitores a experiência que viveu naquela época, mais absorvidos ficamos, sem saber ao certo como aquilo terminaria. É incrível a maneira como nos impressionamos. Eu fiquei bastante perturbada com este conto.kkkkkk... Me deu arrepios o seu final e entendi por que o título é "O Espelho".rs 

O conto me fez refletir bastante e tendo a concordar com o Jacobina. Nisso de termos duas almas. De termos duas personalidades. A interior, aquilo que realmente somos e muitas vezes estamos tão influenciados pela visão que os outros têm de nós que nem sequer conseguimos enxergá-la mais. E nossa alma exterior, que é a forma como nos vemos a partir da visão que os outros têm de nós ou ainda a personalidade que mostramos aos outros, a "máscara" que usamos no dia a dia. A teoria dele faz todo o sentido. Às vezes eu mesma fico pensando, me perguntando quem de fato sou.kkkk... Quem nunca fez isso?rs

- Quem somos? Aquilo que mostramos para os outros? A pessoa que sorri escondendo problemas, que concorda quando quer discordar, que se cala quando quer falar? Somos realmente o que mostramos ou somos aquilo que escondemos, que temos medo ou vergonha de ser? Ou ainda: somos aquilo que os outros veem quando olham para nós? São questões que o conto levanta, são perguntas que nos fazem refletir... 

O mais perigoso de tudo... e também o mais triste... é quando nos tornamos aquilo que os outros dizem que somos. As pessoas viam Jacobina como nada além de alferes. Era algo importante, claro. Mas só o viam assim. Não viam a pessoa, o ser humano. E, com o tempo, Jacobina não mais se via como algo além de alferes. Ele perdeu sua essência. Já não era capaz de ver a si mesmo. Somente o que os outros viam. Isso é chocante. E, se pararmos para pensar, muito real. 


Contos anteriores:

Missa do Galo
Conto de Escola
Cantiga de Esponsais
Teoria do Medalhão 

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